BIOGRAFIA DE ESPIGA PINTO
Um compromisso assumido
A Biografia de Espiga Pinto, da autoria da escritora Manuela Morais, é uma obra seminal, pois além de nos apresentar a figura e o percurso de vida do eterno artista Espiga, o leitor pode aceder a fotografias familiares e a uma enorme galeria de imagens representativas da sua multímoda criação.
No Prelúdio, a autora escreveu: “A história, a nossa história de vida é um complexo e contínuo entrelaçado de aprendizagem dos verdadeiros e puros ensinamentos da honra, da lealdade, da amizade, da verdade, da justiça, do amor, do humanismo e da dignidade” (p.15).
O recurso ao determinante possessivo “nossa” remete-nos para uma cumplicidade entre ambos que Manuela anuncia em plena biografia: “Assim, quero adiantar que vou focar-me nos últimos quinze anos que o nosso casamento durou e que foram os últimos anos da sua vida terrena” (p.30). Na abertura deste “livrinho” o sujeito poético anunciava: “Chegaste! / Radiante de alegria,/ tuas mãos carregadas/ de espigas…” O recurso à antonomásia é símbolo da riqueza que entrou na vida da sua amada – a aparente surpresa de “chegaste” transforma-se no romance de amor (que vivificou Manuela, após a perda do seu marido) confessado: “A tua pele / com o sabor/ da flor do sal,/ é quente e húmida/como desejo/do nosso primeiro beijo/ na recatada noite sob o luar…” – as sinestesias abundantes exteriorizam a profusão de sentidos e sensações provindas deste novo luzeiro amoroso.
Mas afinal quem foi Espiga Pinto? Na impossibilidade de recontar pormenorizadamente a sua história de vida (que cada um dos leitores poderá apreciar no seu âmago) vou realçar os aspetos mais importantes e caracterizadores da sua carreira, evocando algumas palavras da escritora: José Manuel Espiga Pinto viveu apenas, e só, setenta e quatro anos de idade. Nasceu no dia dezasseis de Março, de mil novecentos e quarenta, às três horas e quinze minutos, na freguesia de São Bartolomeu, em Vila Viçosa. (p.31). Apesar de o terem fadado para arquitetura, o seu destino guiou-o para Escultura e Pintura, talvez pela influência da infância, pelas paisagens alentejanas, pelo seu espírito livre e imaginação criadora – estes predicados, a juntarem-se à curiosidade de descobertas e ao gosto do conhecimento – um florilégio de talentos que fizeram dele não apenas e somente um artista português, mas do mundo. Contribuíram também os grandes mestres que encontrou em Évora, no liceu (entre vários, Vergílio Ferreira) e, em Lisboa, que lhe facultaram a amizade com grandes artistas: Mestre Resende, Fernando Lanhas, António Telmo, Almada Negreiros, entre muitos outros.
A sua Obra é composta de várias modalidades, informa-nos a autora:” na Escultura, na Pintura , no Desenho, nas moedas para a Casa da Moeda e das Colecções Philae, em prata e em ouro, em Medalhas Comemorativas, nos Troféus, na Cerâmica, na Gravura, em Serigrafia, nos Vitrais, nas inúmeras Capas para livros, no Cinema para a RTP, na Tapeçaria, nos Murais de grandes dimensões para o espaço urbano, em Logotipos para muitas empresas desde 1967 (a mais conhecida é o logo da Valentim de Carvalho). E, também no Logotipo da Editora Tartaruga.
Recebeu uma bolsa de estudo para investigação do Espaço Urbano, para a Suécia e em França, da Fundação Calouste Gulbenkian” (p.51) As Exposições do seu trabalho foram muito variadas.
Em 1972, em Portugal, realizou no Porto, o 1º Happening Perfomance “Egotemponirico”, ritual e instalação, com o apoio da Galeria Alvarez, no Porto. Foram muitas as participações artísticas e os cenários impressionantes que rechearam a vida deste Ser Invulgar. O gosto pela Geometria e pelos números eram sinais de um perfecionismo ingente que alvorava na sua obra. Tive a honra de testemunhar os seus gestos e de assimilar algumas ideias, quando estive sentada ao seu lado, para a elaboração dos desenhos para o livro de Florbela Espanca, Asa no Ar, Erva no Chão, de Concepción Delgado Corral. Fiquei impressionada, quando o vi puxar de um pequeno caderno de desenho e rascunhar desenhos geométricos, parecia em papel milimétrico, e a executar, com a agilidade das suas mãos delgadas, um complexo campo de traços e de números, formando círculos e lembrando raios de luz. Sem dessonelizar o efeito, pareciam-me imagens provindas do outro mundo, mas com a certeza de que nasceram ali e que encaixavam neste segmento textual: “A descoberta extraordinária da Geometria Sagrada continha a incursão na decifração e descodificação essencial da sua Arte. Desde sempre, o Espiga pintava ou esculpia a sua Obra com símbolos ou características geométricas, a “razão de ouro” e elementos da Astronomia.” (p.39).
Esta biografia surgiu de um compromisso fechado entre o casal: "Prometi velar pelo seu nome e pela sua Obra. Nada ou ninguém demoverá este compromisso de honra que estabelecemos no momento de dizer adeus, até que as minhas forças o permitam… (p.76)" e a autora acrescenta na mesma página:" Passados mais de dez anos do seu falecimento, o meu compromisso é para com a sua memória e a defesa da sua Obra para não cair no
esquecimento. Os milagres operam maravilhas na grandiosidade da nossa dedicação e entusiasmo! “(p.76)
A tematização da obra baseia-se, sobretudo na paisagem alentejana, nas searas ao vento, nos cavalos, na mulher, nos animais, no sol e nas fases da lua; ressaltam também aspetos
tipicamente portugueses – esteios da sua identidade – a calçada portuguesa, as caravelas e os escritores – caso de Camilo Castelo Branco, no livro Camilo Castelo Branco em Santo Tirso de
António Jorge Ribeiro. Manuela Morais explica-nos os seus símbolos: os animais quase pareciam pinturas rupestres. As imagens vinham, desde menino, do seu Alentejo entranhado e
disponível na sua memória. A figura feminina preenchia também esse memorial (…) até os Cantos de Os Lusíadas surgem nos seus inteligíveis e humanos traços.
A espiga do trigo tem uma simbologia muito forte ligada à prosperidade, ao pão que nos sustenta e que contribui para nos fortalecer; mas a espiga concentra em si também um halo sagrado, associado ao ciclo da natureza e adicionado ao amor e à saúde. O nosso homenageado reuniu em si estas características que lhe deram força, resistência e humanismo para que o seu “celeiro” nunca desiludisse ninguém: fascinava, mesmo em silêncio, e, quando soltas, as palavras tinham um sabor a espiga que floresceu em Espiga.
O corpo franzino do artista e a sua vontade de trabalhar/esculpir a pedra, com perfeição, excedendo as suas forças, lembra-me, muitas vezes, o texto de Padre António Vieira, pregando : “Arranca o estatuário uma pedra destas montanhas, tosca, bruta, dura, informe; e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão e começa a formar um homem primeiro, membro a membro e, depois, feição por feição, até à mais miúda. Ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos,
lança-lhe os vestidos. Aqui desprega, ali arruga, acolá recama. E fica um homem perfeito, e talvez um santo que se pode pôr no altar.” (Sermão do Espírito Santo).
Espiga Pinto fica na história artística e humana pela sua enorme capacidade de trabalho, pelo seu excelente sentido de humor, pela candura do seu sorriso, pela maneira fabulosa de surpreender, pelo amor que sabia tão bem demonstrar, e por toda a grandiosidade de uma magnífica Obra que nos deixou… (p.154)
E termino com os versos da sua amada Manuela
Saudade/sente/ quem caminha/no silêncio/ do luar…
Levo-te/a ti/ meu amor, que continuas / a sorrir/ para mim…” (p.158)
Júlia Serra

Sem comentários:
Enviar um comentário