quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Crítica Literária ao Livro "BIOGRAFIA . ESPIGA Pinto", da Dra Júlia Serra.



                     BIOGRAFIA DE ESPIGA PINTO


                        Um compromisso assumido


A Biografia de Espiga Pinto, da autoria da escritora Manuela Morais, é uma obra seminal, pois além de nos apresentar a figura e o percurso de vida do eterno artista Espiga, o leitor pode aceder a fotografias familiares e a uma enorme galeria de imagens representativas da sua multímoda criação.

No Prelúdio, a autora escreveu: “A história, a nossa história de vida é um complexo e contínuo entrelaçado de aprendizagem dos verdadeiros e puros ensinamentos da honra, da lealdade, da amizade, da verdade, da justiça, do amor, do humanismo e da dignidade” (p.15).

O recurso ao determinante possessivo “nossa” remete-nos para uma cumplicidade entre ambos que Manuela anuncia em plena biografia: “Assim, quero adiantar que vou focar-me nos últimos quinze anos que o nosso casamento durou e que foram os últimos anos da sua vida terrena” (p.30). Na abertura deste “livrinho” o sujeito poético anunciava: “Chegaste! / Radiante de alegria,/ tuas mãos carregadas/ de espigas…” O recurso à antonomásia é símbolo da riqueza que entrou na vida da sua amada – a aparente surpresa de “chegaste” transforma-se no romance de amor (que vivificou Manuela, após a perda do seu marido) confessado: “A tua pele / com o sabor/ da flor do sal,/ é quente e húmida/como desejo/do nosso primeiro beijo/ na recatada noite sob o luar…” – as sinestesias abundantes exteriorizam a profusão de sentidos e sensações provindas deste novo luzeiro amoroso.

Mas afinal quem foi Espiga Pinto? Na impossibilidade de recontar pormenorizadamente a sua história de vida (que cada um dos leitores poderá apreciar no seu âmago) vou realçar os aspetos mais importantes e caracterizadores da sua carreira, evocando algumas palavras da escritora: José Manuel Espiga Pinto viveu apenas, e só, setenta e quatro anos de idade. Nasceu no dia dezasseis de Março, de mil novecentos e quarenta, às três horas e quinze minutos, na freguesia de São Bartolomeu, em Vila Viçosa. (p.31). Apesar de o terem fadado para arquitetura, o seu destino guiou-o para Escultura e Pintura, talvez pela influência da infância, pelas paisagens alentejanas, pelo seu espírito livre e imaginação criadora – estes predicados, a juntarem-se à curiosidade de descobertas e ao gosto do conhecimento – um florilégio de talentos que fizeram dele não apenas e somente um artista português, mas do mundo. Contribuíram também os grandes mestres que encontrou em Évora, no liceu (entre vários, Vergílio Ferreira) e, em Lisboa, que lhe facultaram a amizade com grandes artistas: Mestre Resende, Fernando Lanhas, António Telmo, Almada Negreiros, entre muitos outros.

A sua Obra é composta de várias modalidades, informa-nos a autora:” na Escultura, na Pintura , no Desenho, nas moedas para a Casa da Moeda e das Colecções Philae, em prata e em ouro, em Medalhas Comemorativas, nos Troféus, na Cerâmica, na Gravura, em Serigrafia, nos Vitrais, nas inúmeras Capas para livros, no Cinema para a RTP, na Tapeçaria, nos Murais de grandes dimensões para o espaço urbano, em Logotipos para muitas empresas desde 1967 (a mais conhecida é o logo da Valentim de Carvalho). E, também no Logotipo da Editora Tartaruga.

Recebeu uma bolsa de estudo para investigação do Espaço Urbano, para a Suécia e em França, da Fundação Calouste Gulbenkian” (p.51) As Exposições do seu trabalho foram muito variadas. 

Em 1972, em Portugal, realizou no Porto, o 1º Happening Perfomance “Egotemponirico”, ritual e instalação, com o apoio da Galeria Alvarez, no Porto. Foram muitas as participações artísticas e os cenários impressionantes que rechearam a vida deste Ser Invulgar. O gosto pela Geometria e pelos números eram sinais de um perfecionismo ingente que alvorava na sua obra. Tive a honra de testemunhar os seus gestos e de assimilar algumas ideias, quando estive sentada ao seu lado, para a elaboração dos desenhos para o livro de Florbela Espanca, Asa no Ar, Erva no Chão, de Concepción Delgado Corral. Fiquei impressionada, quando o vi puxar de um pequeno caderno de desenho e rascunhar desenhos geométricos, parecia em papel milimétrico, e a executar, com a agilidade das suas mãos delgadas, um complexo campo de traços e de números, formando círculos e lembrando raios de luz. Sem dessonelizar o efeito, pareciam-me imagens provindas do outro mundo, mas com a certeza de que nasceram ali e que encaixavam neste segmento textual: “A descoberta extraordinária da Geometria Sagrada continha a incursão na decifração e descodificação essencial da sua Arte. Desde sempre, o Espiga pintava ou esculpia a sua Obra com símbolos ou características geométricas, a “razão de ouro” e elementos da Astronomia.” (p.39).

Esta biografia surgiu de um compromisso fechado entre o casal: "Prometi velar pelo seu nome e pela sua Obra. Nada ou ninguém demoverá este compromisso de honra que estabelecemos no momento de dizer adeus, até que as minhas forças o permitam… (p.76)" e a autora acrescenta na mesma página:" Passados mais de dez  anos do seu falecimento, o meu compromisso é para com a sua memória e a defesa da sua Obra para não cair no

esquecimento. Os milagres operam maravilhas na grandiosidade da nossa dedicação e entusiasmo! “(p.76)

A tematização da obra baseia-se, sobretudo na paisagem alentejana, nas searas ao vento, nos cavalos, na mulher, nos animais, no sol e nas fases da lua; ressaltam também aspetos

tipicamente portugueses – esteios da sua identidade – a calçada portuguesa, as caravelas e os escritores – caso de Camilo Castelo Branco, no livro Camilo Castelo Branco em Santo Tirso de

António Jorge Ribeiro. Manuela Morais explica-nos os seus símbolos: os animais quase pareciam pinturas rupestres. As imagens vinham, desde menino, do seu Alentejo entranhado e

disponível na sua memória. A figura feminina preenchia também esse memorial (…) até os Cantos de Os Lusíadas surgem nos seus inteligíveis e humanos traços.

A espiga do trigo tem uma simbologia muito forte ligada à prosperidade, ao pão que nos sustenta e que contribui para nos fortalecer; mas a espiga concentra em si também um halo sagrado, associado ao ciclo da natureza e adicionado ao amor e à saúde. O nosso homenageado reuniu em si estas características que lhe deram força, resistência e humanismo para que o seu “celeiro” nunca desiludisse ninguém: fascinava, mesmo em silêncio, e, quando soltas, as palavras tinham um sabor a espiga que floresceu em Espiga.

O corpo franzino do artista e a sua vontade de trabalhar/esculpir a pedra, com perfeição, excedendo as suas forças, lembra-me, muitas vezes, o texto de Padre António Vieira, pregando : “Arranca o estatuário uma pedra destas montanhas, tosca, bruta, dura, informe; e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão e começa a formar um homem primeiro, membro a membro e, depois, feição por feição, até à mais miúda. Ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos,

lança-lhe os vestidos. Aqui desprega, ali arruga, acolá recama. E fica um homem perfeito, e talvez um santo que se pode pôr no altar.” (Sermão do Espírito Santo).

Espiga Pinto fica na história artística e humana pela sua enorme capacidade de trabalho, pelo seu excelente sentido de humor, pela candura do seu sorriso, pela maneira fabulosa de surpreender, pelo amor que sabia tão bem demonstrar, e por toda a grandiosidade de uma magnífica Obra que nos deixou… (p.154)

E termino com os versos da sua amada Manuela

Saudade/sente/ quem caminha/no silêncio/ do luar…

Levo-te/a ti/ meu amor, que continuas / a sorrir/ para mim…” (p.158)


                                                                                  Júlia Serra

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

BOAS FESTAS...




Desenho de ESPIGA Pinto 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

domingo, 7 de dezembro de 2025

Cântico ao AMOR, de Manuela Morais.



O Nosso Amor 


O nosso amor

acalma tempestades,

domina o vento,

os mares,

desafia as cristas das montanhas!


O sol continua a brilhar...


A nossa alma

é pura,

cristalina,

lusitana...


Impressionante a nossa capacidade de amar!


Poema de Manuela Morais

Livro - Cântico ao AMOR, pág. 21



domingo, 16 de novembro de 2025

BIOGRAFIA . FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES, de MANUELA MORAIS.

 


Crítica Literária da DRA. JÚLIA SERRA sobre a BIOGRAFIA . FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES, de MANUELA MORAIS

 


Biografia 

Fernão de Magalhães Gonçalves 

Este livro é um verdadeiro poema de Amor que narra a história de uma vida desaparecida prematuramente, com a idade de 45 anos, longe da Pátria, ao seu serviço, na divulgação da Língua Portuguesa. Estava Fernão Magalhães Gonçalves, na Coreia do Sul a ensinar Português e a preparar os festejos para a comemoração do Dia “10 de Junho” Dia de Portugal e das comunidades portuguesas, quando foi surpreendido pela morte: “No dia oito de Junho de mil novecentos e oitenta e oito os sonhos finalizaram quando o seu olhar sorriu para o meu olhar… “. Este jogo do olhar “seu “e “meu” revela a intimidade existente entre a autora desta obra; Manuela Maria, e o seu esposo Fernão, assinalando, na expressividade do olhar, a despedida dos amantes.  

             A notícia da morte do seu conterrâneo e amigo foi sentidamente evocada pelo Poeta Miguel Torga, no Diário XV: ”Coimbra, 13 de Junho de 1988 – o telefone tocou, e mal eu imaginava que era um dobre a finados.(…) E levaram-no na flor dos anos, ou para confirmarem o aforismo de Plauto, porque o amavam, ou cruelmente para desmerecerem as leis do afecto e tornarem mais absurdo o absurdo” Ainda, no dia seguinte, o poeta não assimilara a “partida” do amigo e escreveu: “Jou, Murça, 14 de Junho de 1988 –  É terrível, a morte. Tira sentido às palavras, aos gestos, às lágrimas, ao silêncio. Deixa a vida sem expressão. (Miguel Torga, Diário XV, pág. 118.).

O livro relata, em pormenor, a vida inteira do escritor, poeta e professor Fernão de Magalhães Gonçalves, num crescendo de emotividade e de saudade daquela que “ficou cá na terra” velando pelo amor vivido a dois e recordando as lembranças do passado, à semelhança do soneto de Camões: “ Alma minha gentil, que te partiste/ tão cedo desta vida descontente/ Repousa  lá no Céu eternamente/E viva eu cá na terra sempre triste”.

 No Prelúdio da obra, a autora explica, nos seguintes termos, o sentido desta biografia: “Este livrinho pretende elucidar a fantástica e pura sensibilidade da criatividade da personagem retractada, e, ao mesmo tempo, ser o testemunho directo de uma vivência que me fez vibrar e experienciar um destino essencialmente íntimo e emotivo” (p.12). Acrescenta ainda Manuela, ao referir as qualidades do marido: “Escrevia como se estivesse em contínuo estado de celebração, em graça, com uma incomparável perfeição, sobriedade, – e, realmente muito bem! (p.13). Confessa, assim, o gostoso sabor dos seus poemas de amor e do saber cantar com mestria tão elevado sentimento! Via nele o seu herói.

Depois do casamento, o casal foi viver para Chaves e, aí, Fernão de Magalhães dedicava-se à escrita, ao convívio com outros artistas e privava, em particular com Miguel Torga, de quem se tornou um perseverante investigador, como comprova a obra Ser e Ler Torga. Apesar de uma vida curta, tem publicado cerca de duas dezenas de livros em estilos diferentes: “O Fernão escreveu vários livros de poesia, alguns contos, milhares de Cartas, e um número incontável de ensaios.” (pág.26). Escreveu ainda em jornais e revistas especializadas sobre grandes epígonos da Literatura Portuguesa: Luís de Camões, José Régio, Aquilino Ribeiro, Trindade Coelho, entre outros, sem nunca abandonar o seu “cedro” Miguel Torga. Os estrangeiros também faziam parte desse alfobre: Jacques Prévert, Hemingway, Paul Claudel, SteinbecK e muito mais.

A sua história de Vida remete-nos para uma família simples, transmontana, que sabia dar valor à terra e dela se alimentava. O filho mais novo – o quinto – muito cedo fora estudar para Braga, não com o intuito de seguir uma vida religiosa, mas para se cultivar e educar no meio do rigor da ordem conventual. Aí captou o sabor da vida, no meio da amargura e da tristeza, separado dos pais muito cedo e com responsabilidade a que lhe incumbia dar resposta, sendo um aluno brilhante. Mais tarde, teve alguns ofícios e foi para a guerra do Ultramar; de regresso à Metrópole, licenciou-se em História e dedicou-se ao ensino, em: Murça, Vouzela, Porto, Chaves, Granada e Coreia do Sul. No papel de narrador, a autora relembra: “Granada, na Andaluzia, no Sul de Espanha, em mil novecentos e oitenta e três, foi um verdadeiro e indizível oásis que se abriu ao Casal transmontano” (p.86). O professor só tinha dois alunos interessados em aprender a Língua Portuguesa, mas, no final da sua comissão, excediam as três centenas, o que revelava o esforço e dedicação ao trabalho e ao país que representava, através da sua língua. Em Espanha, teve a oportunidade de admirar as preciosidades artísticas dos mais renomados Pintores: Goya, Velásquez, Murillo, entre outros. O poema Suspiro Del Moro assinala a sua despedida: “É um poema de amor o /poema da nossa despedida é/um poema de dor do/fim de uma aventura acontecida (….) e na quintilha final “que flor na minha ausência/deixará de nascer na primavera e/que pássaro vindo da distância com/ esta mesma ânsia se/mudará em pedra à minha espera”(p.90).

De regresso a Chaves, reunia-se com a plêiade artística, destacando: o Poeta e Escritor Miguel Torga, o Pintor Nadir Afonso, o Poeta António Cabral, o Poeta Cláudio Lima, o Escritor José Saramago, O Escritor Fernando Namora, o Poeta Eugénio de Andrade e muitos outros que pertenciam a este florilégio literário. Depois de quatro anos em Espanha, foi para a Coreia do Sul, Seoul; no tempo dos Jogos Olímpicos, (quando ganhou Rosa Mota,) Fernão Magalhães estava na Faculdade de Letras a ensinar português.

A narradora relembra, a estadia neste lugar asiático: “O deslumbramento foi total! Seoul expandiu-se nas margens do Rio Han há mais de dois mil anos.” (p.121). Refere o ambiente aí vivido e a descoberta dos segredos orientais: “Seoul é uma cidade luminosa, cercada de oito majestosas montanhas deslumbrantes, a noroeste da Península Coreana.” (p.127). Mas o deslumbramento feneceu com a morte de Fernão, como o leitor deste texto já se apercebeu.

Estruturalmente, o livro está em texto corrido, sem marcação de capítulos, conjugando poesia, prosa e imagens que vão acompanhando o crescimento e a vida do Protagonista, não esquecendo os retratos de família, os primeiros passos em criança e a fotografia do casamento. Há também imagens reveladoras do património histórico-cultural e de paisagens, sobretudo transmontanas, verdadeiros testemunhos das raízes telúricas que os apegaram ao lugar. Fernão, em várias imagens, ombreia com o seu ídolo, Poeta Miguel Torga, ambos irmãos pelo sonho poético e literário que nutriam. Crê-se que o texto abaixo retrata essa cumplicidade amistosa (p.78) 

 “no tempo do seminário da Ordem que frequentara, um dia conseguira surripiar dos reservados da biblioteca um livro meu, fora apanhado a lê-lo, e o obrigaram a pedir perdão de joelhos a toda a comunidade reunida, com o volume nefando pendurado ao pescoço. E nunca senti um ser tão perto de mim. Convidei-o para almoçar, e só não peguei nele ao colo. Tinha a impressão de que estava diante da minha própria efígie, depois de penitenciada num auto-de-fé…” (Miguel Torga, Diário XI, págs. 133/134)


Uma biografia que dá gosto ler e que encanta o olhar pelas belas imagens –   constituem uma espécie de fotobiografia pela marcação temporal diacrónica e pela quantidade de retratos exibidos – embalando o leitor num frémito de alegria e compaixão, pelo testemunho de vida /morte e pelo amor/dor dos amantes. 

Desde 1991 que a Câmara Municipal de Chaves, a Câmara Municipal de Murça e a Junta de Freguesia de Jou têm prestado homenagens a Fernão Magalhães Gonçalves com a atribuição do seu nome a Ruas e a um Polidesportivo. 

                                                                                                               Júlia Serra


quarta-feira, 12 de novembro de 2025

FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES - Livro JÚBILO DA SEIVA

 


VIII


hoje nada te prometo


neste poema concreto vai

apenas um beijo o

desejo de

contigo correr entre os silvedos

colher amoras contar

com os dedos pelos

grãos de areia os anos a que faltam horas


horas guardadas nestas

conchas dobradas flores das

areias que

tens nas mãos cheias

fechadas


Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES

Livro - JÚBILO DA SEIVA, pág. 23



sábado, 1 de novembro de 2025

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

segunda-feira, 22 de setembro de 2025