As trevas caíram sobre a tarde meu amor ensopados pelo sangue dos espinhos os meus olhos procuraram sobre os montes o perfil parado dos pinhais dobrada sobre a terra tu eras a torrente dos nossos serenos dias estavas como uma rola abatida e eu cuspia ao ar o vinagre e o fel que tu bebias secaste as lágrimas no véu que ocultava a vergonha do meu corpo seguiste com o olhar o grito e o eco do meu grito a terra tremeu debaixo dos teus pés e fixaste nos meus olhos empedrados a noite que já mais uniria os nossos gestos.
hoje nada te prometo neste poema concreto vai apenas um beijo o desejo de contigo correr entre os silvedos colher amoras contar com os dedos pelos grãos de areia os anos a que faltam horas horas guardadas nestas conchas dobradas flores das areias que tens nas mãos cheias fechadas
ficou um poema no teu rosto a mão cheia de amoras amêndoas e morangos no teu colo dobrado cinco dedos da mão cinco sílabas do poema inacabado veste a memória de luz os nossos corpos nus e na água nocturna do teu nome dilui o desejo a cor do lume ficou um poema no teu rosto que eu não lerei mais não voltará a roseira do teu corpo a dar rosas iguais
no entanto os rios continuaram braços azuis cheios de horas redondas e de argolas. a barba dos homens continuou crescendo durante a noite ela cresce por debaixo da luz entre as unhas e a lua. ah minha companheira a brecha no muro a boca redonda por onde se ouvem os insectos cantando nos relógios. o mesmo vento suão de sempre. a janela vazia. a cinza acumulada sobre os horizontes. era morte a palavra. frio. nunca mais a última palavra. no entanto os rios continuaram bebendo os pássaros os ramos dos negrilhos. era morte a palavra. o medo a sua estrada. os rios continuaram por onde ela não passa.
Do gosto do teu corpo me ficou na boca o sabor dos frutos por amadurecer ágeis se dobraram nos dedos os mil e um segredos de os colher do som da tua voz me ficou nos ouvidos uma breve melodia interrompida pelo ritmo monótono da vida imposto ao sobressalto dos sentidos da imagem do teu rosto me ficou no olhar a forma perfeita do teu nome cova na areia onde cabe o mar inacabado pão da minha fome. Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES Livro - MEMÓRIA IMPERFEITA
O poeta fumava distraidamente a manhã de Outubro, quando foi acordado por um cavalheiro de branco parecido com o papa. E estranhou que lhe fizesse a mesma pergunta dos outros. No Algarve um gentleman suicida-se, longe da cozinha, por causa do perfume; contam o mar pelos dedos, parecidos com golfinhos, as raparigas nórdicas em Tróia. O meu interlocutor tem um cheque nos óculos e pergunta-me pela Quinta do Senhor Smith. A vastidão palpita. Perdi os olhos. Aconselho-o a apreciar o rumor dos golfinhos de pedra, cozinheiros da luz.
A TARTARUGA é um projecto cultural e humanista, divulga e enobrece a língua e a cultura portuguesas.
Para Platão, a inspiração poética está ligada ao entusiasmo e à posse do sentido do divino.
Para Aristóteles, a poesia, qualquer que seja o seu objecto, heróica ou satírica, e a sua forma, dramática, lírica ou épica pertence às artes de imitação. Enraizada na natureza, a poesia é o lugar de uma verdade mais filosófica e universal do que a simples exactidão histórica.
Porque a história da nossa literatura o impõe e o seu objectivo final é levar aos leitores o registo escrito do pensamento e criatividade que brotam de fontes inesgotáveis aqui estamos, cada vez mais, mostrando a nossa língua no seu melhor e demonstrando que é uma língua viva comunicante, bela e com uma identidade inquestionável.
A essência da escrita é deliciar os leitores e os autores depois da execução lírica, captando cada instante com emoções e atraídos pela maravilhosa interpretação de palavras e imagens representadas e delineadas em cada página do livro.