talvez no instante claro em que o meu corpo no teu corpo cortava a ondulação litoral do teu colo este naufrágio tenha diluído o teu líquido olhar na espuma e nas areias
vinha do sul com o motim dos dedos de fogo que o suor não apagava em aroma desfeitos e em saliva na nossa pele deslizavam as palavras até ao voo rouco da tua respiração tranquila
era o tempo do júbilo da seiva que subia do meu ao teu olhar sereno quando a minha boca nos teus seios duros sentia que o teu púbis cheirava a musgo e feno e sabia a damascos maduros
Poema de Fernão de Magalhães Gonçalves Livro - Antologia Poética, pág. 25 Capa e Desenhos de Tiago Manuel
Não caibo neste instante nesta hora neste dia. Nos meus olhos montes e pinhais. Aí me aguarda e demora cada palavra que repetiria aos gestos iguais.
Longe respira o mar. Nas ondas uma a uma a rósea pele do sol a espada nua do luar crinas e narinas de rochedos de quilhas e de espuma.
Pó de caminhos maratonas e viagens a minha história não cabe na minha memória transborda como um rio para as margens.
Os dedos enclavinhados na guitarra cada vibração em puxão de amarra. Parte-se-me nas artérias toda a melodia da vida. Igual e repetida nenhum sentido a guia.
Poema de Fernão de Magalhães Gonçalves Livro - Andamento, pág. 30 Capa de Nadir Afonso
A TARTARUGA é um projecto cultural e humanista, divulga e enobrece a língua e a cultura portuguesas.
Para Platão, a inspiração poética está ligada ao entusiasmo e à posse do sentido do divino.
Para Aristóteles, a poesia, qualquer que seja o seu objecto, heróica ou satírica, e a sua forma, dramática, lírica ou épica pertence às artes de imitação. Enraizada na natureza, a poesia é o lugar de uma verdade mais filosófica e universal do que a simples exactidão histórica.
Porque a história da nossa literatura o impõe e o seu objectivo final é levar aos leitores o registo escrito do pensamento e criatividade que brotam de fontes inesgotáveis aqui estamos, cada vez mais, mostrando a nossa língua no seu melhor e demonstrando que é uma língua viva comunicante, bela e com uma identidade inquestionável.
A essência da escrita é deliciar os leitores e os autores depois da execução lírica, captando cada instante com emoções e atraídos pela maravilhosa interpretação de palavras e imagens representadas e delineadas em cada página do livro.