quinta-feira, 19 de novembro de 2009
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
O FIM DAS PALAVRAS
Foi num dia concreto como grãos de trigo que
tu chegaste ao fim das palavras e
partiste
eu era os rochedos em que as ondas vinham desfezer-se
tu o barco que navegava na planície azul
alguém havia um dia de dizer como
dois seres inventam o silêncio e o habitam nesse
preciso lugar onde as palavras nada significam e
é inútil falar de amor ou de amargura
nem adeus nos dissemos de nada valeria
no cais de qualquer vida se desprendem os
sentimentos de seus nomes
anónimos e livres seguimos cada
qual por seu caminho até as próprias pedras
palpitavam de medo e de suspeita
alguém havia um dia de dizer como
dois seres se introduzem na pura solidão
cercados de vazias palavras arbitrárias e do
bater pontual do coração.
Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
Foi num dia concreto como grãos de trigo que
tu chegaste ao fim das palavras e
partiste
eu era os rochedos em que as ondas vinham desfezer-se
tu o barco que navegava na planície azul
alguém havia um dia de dizer como
dois seres inventam o silêncio e o habitam nesse
preciso lugar onde as palavras nada significam e
é inútil falar de amor ou de amargura
nem adeus nos dissemos de nada valeria
no cais de qualquer vida se desprendem os
sentimentos de seus nomes
anónimos e livres seguimos cada
qual por seu caminho até as próprias pedras
palpitavam de medo e de suspeita
alguém havia um dia de dizer como
dois seres se introduzem na pura solidão
cercados de vazias palavras arbitrárias e do
bater pontual do coração.
Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Américo Lisboa Azevedo
Era desmedido e fortalecedor o amor que sempre me uniu ao meu tio-avô.
Nos seus cansados e magros braços sentia-me deliciosamente aconchegado e credulamente seguro. Era como se soubesse que, na sua meiga e constante presença, perigo algum me ameaçasse.
A sua terna voz, graciosamente enrouquecida por longas décadas de fumo e por mil fados mal embalados, traía-lhe as lágrimas que, muitas vezes, engolira, em sufocos absorvidos e abafados pelos cavernosos e surdos ruídos de outras tantas medonhas noites que o levaram a adoptar o comprido travesseiro como seu mais digno e fiel confidente, logo após uma viuvez madrugadora. Enviuvara antes ainda de ter cotiado os primeiros lençóis nupciais. Uma moléstia ainda sem baptismo e sem catalogação nos anais da ciência vitimara mortalmente a sua extremosa e desvelada esposa e minha tia-avó materna.
Tudo isto aconteceu em vésperas dos meus pais contraírem matrimónio.
- Coitado do tio Zé! Como se deve sentir sozinho naquela casa grande,- observava a minha mãe.
- Sim, por certo que estará a sofrer atrozmente, - aquiescia o meu pai.
(. . .)AMÉRICO LISBOA AZEVEDO - CONTIGO APRENDO A CAMINHAR - Capa de ESPIGA PINTO
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
ROCHA DE SOUSA
(. . .)
Havia uma funcionária nova, Conceição, que secara aos trinta anos, a boca desdentada, alguns cabelos brancos, a pele amarela, os olhos profundos, a par da maceração sombria que lhe cobria as pálpebras. Servente das serventes, era mal tratada pelo Firmino, que se julgava superior hierárquico dela e encolhia os ombros à fala disciplinadora de Felismina. O Manuel engordara, parecia curvado, mas os olhos pequenos continuavam brilhantes, a suscitar boa disposição. Conseguira arrastar o irmão para a Escola, um homem das arábias, não sei porquê, técnico de formação, fundidor, carpinteiro, electricista, engenheiro de projectores e máquinas afins, belíssimo pedreiro, operário de metais, e assim por diante, conforme o que surgia na acumulação de problemas a precisar de amanho. O falecido Acácio era, com efeito, um autodidacta multifacetado nas competências técnicas, e até artísticas, um caso raro, de bom trato, exemplo extraordinário de certo efeito polivalente projectado pelo emigrante chamado português jeitoso.
BELAS-ARTES E SEGREDOS CONVENTUAIS - ROCHA DE SOUSA
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
dizíamos pedra e era um
sonho da
mais pura convulsão de sangue coroado dizíamos
pedra e
era um fruto no
mais alto dia do verão arrebatado
dizíamos pássaro e
eram os teus dedos na
minha mão cravados pássaro
dizíamos e
era o instante dos
teus olhos imóveis anunciados
que sombra projectam na realidade as
palavras que as coisas modificam da
evidência à verdade vai
o abismo dos
nomes que as indicam
FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES - Livro JÚBILO DA SEIVA
sonho da
mais pura convulsão de sangue coroado dizíamos
pedra e
era um fruto no
mais alto dia do verão arrebatado
dizíamos pássaro e
eram os teus dedos na
minha mão cravados pássaro
dizíamos e
era o instante dos
teus olhos imóveis anunciados
que sombra projectam na realidade as
palavras que as coisas modificam da
evidência à verdade vai
o abismo dos
nomes que as indicam
FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES - Livro JÚBILO DA SEIVA
terça-feira, 3 de novembro de 2009
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
vê só os
nardos secaram e há
pouco choveu no
tenebroso mar se separaram os
nossos barcos e
havia luar anoitecia quando
partimos e
havia sol
levou o vento norte para as dunas os
aromas dos nardos dos lírios e
dos ciprestes sílaba por
sílaba o
teu nome
acenderam-se as luzes da cidade um
comboio parte para
sempre de um cais de pedra e água verde e
eu regresso
Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES - Livro JÚBILO DA SEIVA
nardos secaram e há
pouco choveu no
tenebroso mar se separaram os
nossos barcos e
havia luar anoitecia quando
partimos e
havia sol
levou o vento norte para as dunas os
aromas dos nardos dos lírios e
dos ciprestes sílaba por
sílaba o
teu nome
acenderam-se as luzes da cidade um
comboio parte para
sempre de um cais de pedra e água verde e
eu regresso
Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES - Livro JÚBILO DA SEIVA
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
JOAQUIM DE BARROS FERREIRA
CAMPOS DE SOL
Chega-se e logo se entra
na terra vazada de confissões,
como quando se abre um grade livro.
Assim são estes campos de sol
desde o tempo dos tempos
por onde Ariadne alonga
seus extensos cabelos:
teias de vinhas verdes, verdes
e sol às tranças.
Onde quer que se esteja,
retido nas margens
ou deslizando solto no rio,
o canto de Circe ressoa
dia e noite,
cativando o sentido,
adormecendo a memória.
JARDINS SUSPENSOS - JOAQUIM DE BARROS FERREIRA
Chega-se e logo se entra
na terra vazada de confissões,
como quando se abre um grade livro.
Assim são estes campos de sol
desde o tempo dos tempos
por onde Ariadne alonga
seus extensos cabelos:
teias de vinhas verdes, verdes
e sol às tranças.
Onde quer que se esteja,
retido nas margens
ou deslizando solto no rio,
o canto de Circe ressoa
dia e noite,
cativando o sentido,
adormecendo a memória.
JARDINS SUSPENSOS - JOAQUIM DE BARROS FERREIRA
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
terça-feira, 27 de outubro de 2009
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
sábado, 24 de outubro de 2009
FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
(. . .)
Simplesmente, porque a libertação foi "universal" mas não plural, porque a liberdade não consiste num número infinito de possibilidades mas apenas numa, essa individualização, paradoxalmente, custou-lhe o preço da liberdade e da própria vida. Porque, desde o momento em que partiu, desde o momento em que se auto-afirmou e individualizou, Vicente entrou num destino sem mais opções e alternâncias, sem outro contéudo e sentido que o da liberdade absurda, sem outro desfecho que o da morte soberana. Assim, o corvo, Vicente de nome próprio, por via de regra de todos os dogmas teológicos de todas as religiões (que crucificaram os seus próprios redentores) - terá de morrer afogado. Os sumérios Enkidu e Gilgamesh morreram. Antígona morreu. Sísifo desce e sobe a sua montanha absurdamente.
A não ser que Deus, desencantado por ver-se confrontado na sua soberania por uma criatura que ele próprio não reconhece como autónoma, deixe de tirar prazer desse facto e acabe por admitir que o seu poder, afinal de contas negativo, entrou num beco sem saída. (. . .)
FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES - SER E LER MIGUEL TORGA
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
CLÁUDIO LIMA
com um pouco de sol
animo a estática
estátua
da beleza
com um pouco de pasmo
plasmo o perfil
ágil e equívoco
do poema
com um pouco de mim
modelo um livro
difícil e polémico
- um apócrifo
e lavo as mãos
ganhei o dia
a disciplinar o verde
das searas
com um pouco de serenidade
aspiro a morte
na líquida evidência
dos espelhos
e morro em tronco nu
antes de o anjo chegar
CLÁUDIO LIMA - ITINERARIUM
animo a estática
estátua
da beleza
com um pouco de pasmo
plasmo o perfil
ágil e equívoco
do poema
com um pouco de mim
modelo um livro
difícil e polémico
- um apócrifo
e lavo as mãos
ganhei o dia
a disciplinar o verde
das searas
com um pouco de serenidade
aspiro a morte
na líquida evidência
dos espelhos
e morro em tronco nu
antes de o anjo chegar
CLÁUDIO LIMA - ITINERARIUM
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
CARLOS AURÉLIO
SAUDADE
A alma de Portugal é feita de Saudade e, a Saudade, alimenta-se de uma luz imorredoira e infinita de algo que já existiu e que não sabemos definir com exactidão. Sentimos uma Presença de ordem metafísica que nos acompanha há oito séculos ou, no plano individual, a nostalgia da infância que mora fundo em cada um de nós.
Nenhuma revolução política, nenhum acréscimo de desenvolvimento económico, resolve o sentimento de ausência e de exílio que os portugueses experimentam no seu próprio país. Falta sempre qualquer coisa de decisivo. Permanecemos vivos porque a Saudade não morre.
CONSIDERANDO OS FILÓSOFOS - CARLOS AURÉLIO
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
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