segunda-feira, 24 de agosto de 2009

FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES


SER E LER MIGUEL TORGA - FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES

Seoul, 16 de Abril de 1988

Meu Caro Cláudio Lima
A 19 mil metros de altitude e a mais de 1000 kms H/, encontrei-me num avião da Swissair, com o Álvaro Guerra. Não escondeu que ia aterrorizado e que "nós vamo-nos vendo nos aviões...". Pela minha parte, a viagem foi magnífica e, por muito que eu viva, não mais me esquecerei da vista aérea de Bombaim "by night". Seoul é gigantescamente grande, cresceu a esmo e a prumo nas margens do Mar Amarelo. 10 milhões de habitantes. Vivo nos arrabaldes, cercado de azáleas. Enquanto trabalho, vejo os "katchis" a fazer ninho nuns plátanos esguios e ossudos como os atletas de olhos amendoados que me rodeiam. Mas sobre isso seguirá em breve uma carta tranquila. Este postal tem por finalidade localizar-me e avisar-me. O teu texto seguiu logo para Coimbra. Obrigado, está maravilhoso. Chovem-me cartas a dizer que o livro vai assanhar. Creio que houve tentativa de bloqueio. Mas já deve estar nas montras e tu vais brevemente recebê-lo. Dá-me notícias. Já corri todos os templos budistas das montanhas. O sentimento da sacralidade é universal. Um abraço. Fernão

ALGUMAS CARTAS - FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES - CARTA A CLÁUDIO LIMA.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES

Chaves, 8 de Janeiro de 1978

Helena Vaz da Silva

Sou o autor de SETE MEDITAÇÕES que v/ refere no final da sua reportagem - Miguel Torga e os 7 poetas.
Considero este seu trabalho, no impressivismo gráfico, no desembaraço da fala, na policromia informativa, na alegre inteligência do tom de humor escolhido, - a melhor abordagem jornalística que já foi feita ao grande poeta transmontano.
Avesso ao EXPRESSO, jornal a que só (e dificilmente) chego com a minha mão direita, - foi casualmente que, correndo por ele os óculos, me bati com o seu maravilhoso texto. Há na audácia e na agilidade das sequências desta sua narrativa - uma segurança e uma intuição que nos deixam muito perto do que há de melhor na Obra e no Autor da Obra.
Cabe-me, pelo visto (...), no entendimento público da literatura torguiana alguma responsabilidade; e é, em nome dela, que amavelmente a venho felicitar.
Livro ALGUMAS CARTAS - FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES

CARTA A MIGUEL TORGA

Murça, 1 de Janeiro de 1979

Senhor Doutor

Balançada num esboço que venho fazendo crescer desde Lisboa, esta carta estava capaz de se alargar por umas três ou quatro folhas. Era muita "prosa". Vejamos como sei aproveitar o meu papel e o seu tempo.
Como terá sabido, eu deveria fazer viagem no carro do P.Valentim. Eu deixara-o perplexo, na noite anterior, com a história de uma faca que dois "lapantins" me haviam apontado ao peito. Ele deixara-me na Avenida cheio de conselhos e de cuidados. Ficou combinado que, às 9 horas do dia 27, eu telefonaria ao Sr.Doutor para a Avenida das Descobertas. Não telefonei. Mas não, não houve sangue. O telefone do Dr.Idálio é que estava irremediavelmente avariado. Disquei para lá quase durante uma hora. Nada. As empregadas do Consultório esgotaram rapidamente a amabilidade a informar-me que as avarias do telefone do Dr.Idálio eram muito frequentes. (...)
ALGUMAS CARTAS - FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES


ASSINALADOS - FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES.

domingo, 16 de agosto de 2009

MIGUEL TORGA - O DRAMA DE EXISTIR

Miguel Torga o Drama de Existir - ARMINDO AUGUSTO.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Capa de ESPIGA PINTO


Livro de Horas Iluminado Obliquamente - VÍTOR OLIVEIRA JORGE. - Capa -ESPIGA PINTO.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES


Sete Meditações Sobre Miguel Torga - FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

ALGUMAS CARTAS


ALGUMAS CARTAS - FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

SER TORGA


SER TORGA - FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

CARTA A CLÁUDIO LIMA

Granada, 6 de Novembro de 1983

Cláudio

Cheguei há cerca de um mês e, apesar de quase toda palmilhada, Granada ainda é um mundo por descobrir. Visitei o Alhambra e o Generalife com a mesma emoção com que os românticos visitaram a Grécia. Apesar de o legado cultural dos Árabes ter um dinamismo quase inconsciente, ele é, como sabes, bem mais profundo e subtil do que frequentemente se diz e imagina.
Sábios, de uma sabedoria abstracta e minuciosa, no seu entendimento do mundo e da vida enraíza a magia gratuita que deu o tónus à nossa mentalidade e à nossa realidade. Mais tarde, falaremos.
Esse maço de folhas que aí vai é o projecto de um livro cuja organização aí vim adiando. Aqui, a economia do tempo força-me a trabalhar e está aí o que, porventura, virá a ser o AMORÍMETRO. Trouxe a papelada toda e seleccionei. Das centenas de poemas salvaram-se uns 50. Mas creio que a monda ainda foi generosa. (...)
Texto de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

SER E LER MIGUEL TORGA

O OUTRO LIVRO DE JOB
Depois do cepticismo teocêntrico, centrífugo e reivindicativo dos primeiros livros, com O OUTRO LIVRO DE JOB, o itinerário torguiano evolui para a definitiva organização problemática do seu drama. À invenção da liberdade sobrevêm a da responsabilidade da qual a culpa é o pleno conteúdo. Mas, se a culpa advém da relação transgressiva da consciência com uma norma, o imperativo da liberdade obriga a clarificar a sustentabilidade dessa norma. Não é numa liberdade culpada que a soberania da vontade humana pode ter expressão, mas numa liberdade inocente - porque absoluta, princípio inalienável de toda a acção e de todos os valores. Este princípio confronta-se com o papel histórico da providência divina e com o sistema ético que nela se fundamentava.
É esta a chave temática de O OUTRO LIVRO DE JOB, livro que, como o título indica, recorre à analogia e à alternância do famoso mito de Job, de cujo livro bíblico, marco decisivo da evolução do pensamento humano.(...)
Texto de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES

sexta-feira, 31 de julho de 2009

ALHAMBRA

Este é o lugar do nosso íntimo regresso
aqui tínhamos vivido antes das
palavras usadas e das emoções perplexas
nestas puras águas banhámos o suor
do primeiro prazer
com bálsamos de ervas e de flores
despertámos a alegria adormecida na
monotonia do corpo melodioso
por estes pátios nos passeámos entre
laranjeiras e ciprestes de rosas coroados

esta é a profecia minuciosa que
nos trouxe do deserto
o paraíso desde sempre anunciado
nos olhos que as estrelas enganavam

aqui está a chave da
pureza das imagens destruídas.

Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES

O JORNALISTA

O jornalista queria passar despercebido e aproveitou um disfarce carnavalesco de croça de palha e dominó. Só apareceu em Cheires à noite, não no carro do jornal cujo nome estampado nas portas chamaria a atenção, mas num carro de praça de Vila Real. Como ainda faltava uma hora até o cortejo fúnebre começar, entrou num café para comer um cachorro quente e beber meia de leite, não se demorando. Sabia que era no adro da igreja que o desfile principiava e foi-se aproximando por entre a gente que já se apinhava no largo próximo onde os mirones, sobretudo forasteiros, mais acudiam. Dois rapazes entretanto tinham-no topado e olhavam-no de soslaio. Ele nas suas sete quintas, com baforadas de tabaco às rodinhas, a medir o que iria acontecer: pois bem, a padiola com o mono do Pai da Carne de falo arrebitado sai do adro, é isso. Atrás, um marmanjo a fazer de padre e outro de sacristão, pessoal com velas e a carpideira do costume: ai o meu Pai da Carne que vai morrer, coitadinho! Por aí fora e, ah, também uma campainha. (...)

Texto de ANTÓNIO CABRAL

Capa de ESPIGA PINTO


O Rio Que Perdeu as Margens - ANTÓNIO CABRAL

AQUELE S.JOÃO

O que ninguém viu, salvo uma senhora, e eu também não vi, ia lá ver essas coisas naquele tempo, foi aparecer um fantasma junto à cascata. Mas vamos por partes.
Na rua em que nasci acendiam-se lamparinas na noite de S.João. E também se deitava um balão, pelo menos. Era vê-lo a subir para as estrelas. E eu, ainda pirralho, pensava que as estrelas, sobretudo a lua, iam ficar contentes com a companhia e não lhes dava para caírem na rua em cima de nós. As lamparinas suspensas de meia dúzia de arames de vinha, altinhas para os carros de bois passarem por baixo, essas é que eram o meu encanto. Grisetas de azeite a bruxulearem no fundo dum copo de papel de seda, as lamparinas atraíam os olhos da pequenada que luziam com elas.
Luziam já uma semana antes. Lembro-me de ver o ti Manel e o ti Bento a enrolarem papel colorido, enquanto nós, os canalhitas, andávamos de casa em casa a pedir azeite e latinhas de pomada vazias. Algumas já as tínhamos nós, das que sobravam do Entrudo, ocasião em que púnhamos sobre as bombas de estouro, mal lhes acendíamos o rastilho: era vê-las desencabrestarem-se e saltarem aos telhados. (...)
Texto de ANTÓNIO CABRAL

quinta-feira, 30 de julho de 2009

O FIM DAS PALAVRAS

Foi num dia concreto como grãos de trigo que
tu chegaste ao fim das palavras e
partiste
eu era os rochedos em que as ondas vinham desfazer-se
tu o barco que navegava na planície azul

alguém havia um dia de dizer como
dois seres inventam o silêncio e o habitam nesse
preciso lugar onde as palavras nada significam e
é inútil falar de amor ou de amargura

nem adeus nos dissemos de nada valeria
no cais de qualquer vida se desprendem os
sentimentos de seus nomes

anónimos e livres seguimos cada
qual por seu caminho até as próprias pedras
palpitavam de medo e de suspeita

alguém havia um dia de dizer como
dois seres se introduzem na pura solidão
cercados de vazias palavras arbitrárias e do
bater pontual do coração.

Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Capa de ESPIGA PINTO


JARDINS SUSPENSOS, de JOAQUIM DE BARROS FERREIRA. -Capa ESPIGA PINTO

CAMPOS DE SOL

Chega-se e logo se entra
na terra vazada de confissões,
como quando se abre um grande livro.
Assim são estes campos de sol
desde o tempo dos tempos
por onde Ariadne alonga
seus extensos cabelos:
teias de vinhas verdes, verdes
e sol às tranças.

Onde quer que se esteja,
retido nas margens
ou deslizando solto no rio,
o canto de Circe ressoa
dia e noite,
cativando o sentido,
adormecendo a memória.

Poema de JOAQUIM DE BARROS FERREIRA

terça-feira, 28 de julho de 2009

SEMPRE A ESFINGE

sempre a esfinge
finge
que se deixa desvendar

para que édipo não trema
diante do problema
a esplicar

sempre o cego arbítrio
há-de
obrigar édipo a matar o pai

(só no fim da tragédia
o pano cai)

Poema de CLÁUDIO LIMA

A PERFEIÇÃO

A PERFEIÇÃO do imperfeito é um problema que a inteligência e os anjos terão de resolver. Os olhos não precisam de resolver nada, ao contemplarem a Torre de Pisa, a Vénus de Milo, as Capelas Imperfeitas da Batalha ou este bonito galho seco de giesta que a minha mulher pôs num jarrão, ao fundo das escadas.
Texto de ANTÓNIO CABRAL