O Rio Que Perdeu as Margens - ANTÓNIO CABRAL
sexta-feira, 31 de julho de 2009
AQUELE S.JOÃO
O que ninguém viu, salvo uma senhora, e eu também não vi, ia lá ver essas coisas naquele tempo, foi aparecer um fantasma junto à cascata. Mas vamos por partes.
Na rua em que nasci acendiam-se lamparinas na noite de S.João. E também se deitava um balão, pelo menos. Era vê-lo a subir para as estrelas. E eu, ainda pirralho, pensava que as estrelas, sobretudo a lua, iam ficar contentes com a companhia e não lhes dava para caírem na rua em cima de nós. As lamparinas suspensas de meia dúzia de arames de vinha, altinhas para os carros de bois passarem por baixo, essas é que eram o meu encanto. Grisetas de azeite a bruxulearem no fundo dum copo de papel de seda, as lamparinas atraíam os olhos da pequenada que luziam com elas.
Luziam já uma semana antes. Lembro-me de ver o ti Manel e o ti Bento a enrolarem papel colorido, enquanto nós, os canalhitas, andávamos de casa em casa a pedir azeite e latinhas de pomada vazias. Algumas já as tínhamos nós, das que sobravam do Entrudo, ocasião em que púnhamos sobre as bombas de estouro, mal lhes acendíamos o rastilho: era vê-las desencabrestarem-se e saltarem aos telhados. (...)
Texto de ANTÓNIO CABRAL
quinta-feira, 30 de julho de 2009
O FIM DAS PALAVRAS
Foi num dia concreto como grãos de trigo que
tu chegaste ao fim das palavras e
partiste
eu era os rochedos em que as ondas vinham desfazer-se
tu o barco que navegava na planície azul
alguém havia um dia de dizer como
dois seres inventam o silêncio e o habitam nesse
preciso lugar onde as palavras nada significam e
é inútil falar de amor ou de amargura
nem adeus nos dissemos de nada valeria
no cais de qualquer vida se desprendem os
sentimentos de seus nomes
anónimos e livres seguimos cada
qual por seu caminho até as próprias pedras
palpitavam de medo e de suspeita
alguém havia um dia de dizer como
dois seres se introduzem na pura solidão
cercados de vazias palavras arbitrárias e do
bater pontual do coração.
Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
tu chegaste ao fim das palavras e
partiste
eu era os rochedos em que as ondas vinham desfazer-se
tu o barco que navegava na planície azul
alguém havia um dia de dizer como
dois seres inventam o silêncio e o habitam nesse
preciso lugar onde as palavras nada significam e
é inútil falar de amor ou de amargura
nem adeus nos dissemos de nada valeria
no cais de qualquer vida se desprendem os
sentimentos de seus nomes
anónimos e livres seguimos cada
qual por seu caminho até as próprias pedras
palpitavam de medo e de suspeita
alguém havia um dia de dizer como
dois seres se introduzem na pura solidão
cercados de vazias palavras arbitrárias e do
bater pontual do coração.
Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
quarta-feira, 29 de julho de 2009
CAMPOS DE SOL
Chega-se e logo se entra
na terra vazada de confissões,
como quando se abre um grande livro.
Assim são estes campos de sol
desde o tempo dos tempos
por onde Ariadne alonga
seus extensos cabelos:
teias de vinhas verdes, verdes
e sol às tranças.
Onde quer que se esteja,
retido nas margens
ou deslizando solto no rio,
o canto de Circe ressoa
dia e noite,
cativando o sentido,
adormecendo a memória.
Poema de JOAQUIM DE BARROS FERREIRA
na terra vazada de confissões,
como quando se abre um grande livro.
Assim são estes campos de sol
desde o tempo dos tempos
por onde Ariadne alonga
seus extensos cabelos:
teias de vinhas verdes, verdes
e sol às tranças.
Onde quer que se esteja,
retido nas margens
ou deslizando solto no rio,
o canto de Circe ressoa
dia e noite,
cativando o sentido,
adormecendo a memória.
Poema de JOAQUIM DE BARROS FERREIRA
terça-feira, 28 de julho de 2009
SEMPRE A ESFINGE
sempre a esfinge
finge
que se deixa desvendar
para que édipo não trema
diante do problema
a esplicar
sempre o cego arbítrio
há-de
obrigar édipo a matar o pai
(só no fim da tragédia
o pano cai)
Poema de CLÁUDIO LIMA
finge
que se deixa desvendar
para que édipo não trema
diante do problema
a esplicar
sempre o cego arbítrio
há-de
obrigar édipo a matar o pai
(só no fim da tragédia
o pano cai)
Poema de CLÁUDIO LIMA
A PERFEIÇÃO
A PERFEIÇÃO do imperfeito é um problema que a inteligência e os anjos terão de resolver. Os olhos não precisam de resolver nada, ao contemplarem a Torre de Pisa, a Vénus de Milo, as Capelas Imperfeitas da Batalha ou este bonito galho seco de giesta que a minha mulher pôs num jarrão, ao fundo das escadas.
Texto de ANTÓNIO CABRAL
segunda-feira, 27 de julho de 2009
FUTURO
Carros sem rodas,
Planando.
Mundo sem fome,
Pasmando.
Homens lutando
Pela pureza
Da Natureza destruída.
Ai Futuro!
Poema de ANTÓNIO FORTUNA
Planando.
Mundo sem fome,
Pasmando.
Homens lutando
Pela pureza
Da Natureza destruída.
Ai Futuro!
Poema de ANTÓNIO FORTUNA
sábado, 25 de julho de 2009
SETEMBRO
e tu que conheces o reino silencioso
das formas e dos gestos
serenamente a ti regressas da perplexidade
e sobre a areia lisa te deitas e recolhes
com as mãos postas
e os olhos rasos de esquecimento
Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
das formas e dos gestos
serenamente a ti regressas da perplexidade
e sobre a areia lisa te deitas e recolhes
com as mãos postas
e os olhos rasos de esquecimento
Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
quinta-feira, 23 de julho de 2009
quarta-feira, 22 de julho de 2009
BASÍLICA DA ESTRELA
porque é em setembro que as pálpebras caem
seguindo as folhas
aqui a tua última palavra se juntou a
não sei que pedra de lioz do frontão
nenhuma memória viu
apartar-se da minha a tua mão
e nos seguiu
apenas a sombra das torres volta
ao preciso lugar donde partiste.
Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
seguindo as folhas
aqui a tua última palavra se juntou a
não sei que pedra de lioz do frontão
nenhuma memória viu
apartar-se da minha a tua mão
e nos seguiu
apenas a sombra das torres volta
ao preciso lugar donde partiste.
Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
terça-feira, 21 de julho de 2009
MAS OS OLHOS DE PEDRA NÃO ESQUECEM
deixaste um perfume ou que outro nome darei ao
campo aberto da tua memória
deixaste um perfume em toda a parte ou
como dizer melhor que sou o
campo aberto da tua imagem
deixaste um perfume em tudo o que vejo a
agilidade de um aroma no ar que
não posso recusar por ser um
bicho de pulmões
e te recordo
como quem respira
Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
(dedicado a Sophia de Mello Breyner Andresen)
campo aberto da tua memória
deixaste um perfume em toda a parte ou
como dizer melhor que sou o
campo aberto da tua imagem
deixaste um perfume em tudo o que vejo a
agilidade de um aroma no ar que
não posso recusar por ser um
bicho de pulmões
e te recordo
como quem respira
Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
(dedicado a Sophia de Mello Breyner Andresen)
domingo, 19 de julho de 2009
HOJE NADA TE PROMETO
hoje nada te prometo
neste poema concreto vai
apenas um beijo o
desejo de
contigo correr entre os silvedos
colher amoras contar
com os dedos pelos
grãos de areia os anos a que faltam horas
horas guardadas nestas
conchas dobradas flores das
areias que
tens nas mãos cheias
fechadas
Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
neste poema concreto vai
apenas um beijo o
desejo de
contigo correr entre os silvedos
colher amoras contar
com os dedos pelos
grãos de areia os anos a que faltam horas
horas guardadas nestas
conchas dobradas flores das
areias que
tens nas mãos cheias
fechadas
Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
ÁVILA
em torno da vida uma muralha e um
pássaro de granito preso à boca da
solidão do corpo agrilhoado rouca a
sombra os ramos devora das árvores despidas
espesso se petrifica o silêncio emparedado
que certeza da terra nua aos olhos te levam os sentidos
nas lágrimas que choras e que
palavras demoras
adivinhada já nos meus ouvidos
látegos e cilícios as
veredas do amor nos abrirão e
a que encontro os
caminhos do corpo levarão
Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
(dedicado a Santa Teresa de Ávila)
pássaro de granito preso à boca da
solidão do corpo agrilhoado rouca a
sombra os ramos devora das árvores despidas
espesso se petrifica o silêncio emparedado
que certeza da terra nua aos olhos te levam os sentidos
nas lágrimas que choras e que
palavras demoras
adivinhada já nos meus ouvidos
látegos e cilícios as
veredas do amor nos abrirão e
a que encontro os
caminhos do corpo levarão
Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
(dedicado a Santa Teresa de Ávila)
quarta-feira, 15 de julho de 2009
SER E LER MIGUEL TORGA

(...)" A obra de Miguel Torga é progressivamente estruturada por três discursos ou níveis de sentido que evoluem através de fenómenos de divergência e de convergência numa suscitação dialética que põe a nu o movimento das elementares componentes dramáticas da natureza humana: o apelo da transcendência (discurso teológico), o fascínio telúrico (discurso cósmico) e o imperativo da liberdade (discurso sociológico)."
Ser e Ler Miguel Torga - FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
sexta-feira, 10 de julho de 2009
quinta-feira, 2 de julho de 2009
S.MIGUEL DE SEIDE
a minha cegueira avista a amargura verde
proibida de copiar
os relevos a cor e
a profunda calma do teu rosto
meu amor
veloz é a passagem da alegria e
lento o desespero
que a pressente diluída na distância
Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
(dedicado a Camilo Castelo Branco)
proibida de copiar
os relevos a cor e
a profunda calma do teu rosto
meu amor
veloz é a passagem da alegria e
lento o desespero
que a pressente diluída na distância
Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
(dedicado a Camilo Castelo Branco)
quarta-feira, 1 de julho de 2009
VIZNAR
E quando eu chegar ao fim das
minhas angústias e desejos e o
tempo se fechar e o sol se enfim puser
cobri-me com terra e ervas areia algumas
flores no meio de um caminho
que restem da memória que ficou
as pegadas casuais
breves e desiguais de
ali ter passado alguém que ainda não voltou.
Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
(dedicado a Frederico Garcia Lorca)
minhas angústias e desejos e o
tempo se fechar e o sol se enfim puser
cobri-me com terra e ervas areia algumas
flores no meio de um caminho
que restem da memória que ficou
as pegadas casuais
breves e desiguais de
ali ter passado alguém que ainda não voltou.
Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
(dedicado a Frederico Garcia Lorca)
terça-feira, 30 de junho de 2009
FRANCISCO DE ASSIS
Há tanto tempo que eu não escrevo um verso
meu pai e meu irmão
com palavras tuas me ensinaram
desde o berço
o nome da liberdade e o do pão
o nome da fome do fogo e o do vento
assim começou a minha história
fui a carne da tua memória
e da tua lição
por ti
grandes e pequenos escravos e
senhores
máscaras do rosto comum de
toda a gente
rimavam
com os sinais interiores
que na minha mente
acordavam
a luz do sol a cor da água o lume das flores
por ti
morena ao sol de Abril
sangrou uma flor na pedra do meu punho
em teu nome se fizeram minhas
as tuas chagas impressas
(eram a liberdade e o seu testemunho
que ateavam a centelha
da igualdade vermelha
do sangue vasculado de promessas)
há tanto tempo que eu não escrevo um verso
meu pai e meu irmão
a liberdade já não está onde estão
as flores
onde estão os pobres
onde está o vento
madrugada de um momento
sonho escrito e apagado
neste tempo quadrado
a fraternidade da tua
lição
morreu dentro dos homens
sua única vontade
sua última prisão.
Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
(dedicado a São Francisco de Assis)
meu pai e meu irmão
com palavras tuas me ensinaram
desde o berço
o nome da liberdade e o do pão
o nome da fome do fogo e o do vento
assim começou a minha história
fui a carne da tua memória
e da tua lição
por ti
grandes e pequenos escravos e
senhores
máscaras do rosto comum de
toda a gente
rimavam
com os sinais interiores
que na minha mente
acordavam
a luz do sol a cor da água o lume das flores
por ti
morena ao sol de Abril
sangrou uma flor na pedra do meu punho
em teu nome se fizeram minhas
as tuas chagas impressas
(eram a liberdade e o seu testemunho
que ateavam a centelha
da igualdade vermelha
do sangue vasculado de promessas)
há tanto tempo que eu não escrevo um verso
meu pai e meu irmão
a liberdade já não está onde estão
as flores
onde estão os pobres
onde está o vento
madrugada de um momento
sonho escrito e apagado
neste tempo quadrado
a fraternidade da tua
lição
morreu dentro dos homens
sua única vontade
sua última prisão.
Poema de FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
(dedicado a São Francisco de Assis)
sábado, 27 de junho de 2009
NATAL - CONTO
NATAL
- Amanhã, há comédias - disse a Mãe velhinha para o irmão de Floriano, que vivia longe e viera consoar com a família. Amanhã há comédias e tu tens de ficar.
- Vamos ver, disse o filho recém-chegado.
As comédias que, no dia seguinte, teriam lugar na Freiria - Jou, na garagem do Floriano, eram uma peça de teatro que o P.Maldonado ensaiara, que metia vinte e uma figuras, e cujo lance dramático exemplar consistia em o Celso de Mascanho puxar presumivelmente de uma pistola para o ladrão do Palhinhas - e encontrar no bolso, em vez do "ferro", um rosário de pau. O que era um milagre da Senhora do Rosário. Estas comédias já tinham corrido outros "povos" de Jou e, nas costas do padre, rosnava-se que os actores diziam todas as vezes a mesma coisa.
- Uns impostores.
Estava-se, pois, em noite de consoada e havia já umas duas ou três horas que Marília servira um prato especial ao maluquinho do Alcino de Toubres, que enlouquecera por umas questões de águas e andava fugido da família, - prato que Alcino comeu sentado nas escaleiras da varanda, com sobriedade, pois naquela noite estava muito escorreito e correcto. (...)
do livro -Modo de Vida - FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
quinta-feira, 25 de junho de 2009
PRÉMIOS DE POESIA
À memória de Fernão de Magalhães Gonçalves está instituído um Prémio Nacional de Poesia.
Premiados:
2007 - António Cabral
2008 - Cláudio Lima
2009 - Joaquim de Barros Ferreira
2010 - António Fortuna
O amor é o alimento celestial para alcançar a sabedoria divina, abraçar a Terra, ascender às Estrelas, revelar a entrada para o Templo do "eu" interior.
Amamos as Pessoas, a Obra que realizam ou ambas.
A semente está lançada, aguardamos o fruto amadurecido pelo sol e pelo sonho.
(...) Enquanto os teólogos debatem verdades religiosas, grandes filósofos procuram conhecimento e certeza.
Nós continuamos na margem do nosso conhecimento, preservando esta valiosíssima herança cultural e procuramos incessantemente a Arca da Aliança.
do livro "Três Rios Abraçam o Coração", de Manuela Morais
Premiados:
2007 - António Cabral
2008 - Cláudio Lima
2009 - Joaquim de Barros Ferreira
2010 - António Fortuna
O amor é o alimento celestial para alcançar a sabedoria divina, abraçar a Terra, ascender às Estrelas, revelar a entrada para o Templo do "eu" interior.
Amamos as Pessoas, a Obra que realizam ou ambas.
A semente está lançada, aguardamos o fruto amadurecido pelo sol e pelo sonho.
(...) Enquanto os teólogos debatem verdades religiosas, grandes filósofos procuram conhecimento e certeza.
Nós continuamos na margem do nosso conhecimento, preservando esta valiosíssima herança cultural e procuramos incessantemente a Arca da Aliança.
do livro "Três Rios Abraçam o Coração", de Manuela Morais
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