sábado, 6 de junho de 2009

ASSINALADOS



(...) Alguém, cá de baixo, que andasse ao meu lado e me acompanhasse angustiadamente na procura de um recinto de fogo, em que todos temos os olhos quando sorrimos depois de termos compreendido que alguém nos atraiçoou.
Mas é escusado. A negrura que estiver para vir há-de vir toda. Todos aqueles frades felizes são o cenário da minha comédia. E é por isto, por ser sozinho que tenho de enfrentar a culpa, a dor - que eu nem chorar consigo. A vontade de chorar represente uma certa superação das funduras onde estamos, acompanha uma certa comunhão de dor, um certo vislumbre de sentido para a solidão. Resta-me continuar a esvaziar as mãos, esquecer, renunciar. Porei os meus passos no movediço que os pés recusam e entrarei no vago e no acaso, perdido mas tenso e de ferro.(...)
Assinalados - FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
À sua memória está instituído um Prémio de Poesia

ANTOLOGIA DOS POEMAS DURIENSES


O Rio Douro

Primeiro, vejo-o descer como um sinal
distante; depois, o cravo
da luz transborda. A asa
regressa, finalmente, ao corpo
e segue com ele.

A explosão da tarde na vidraça da quinta
e o voo amplo do grifo predador
como vou eu sentá-los
à mesa do banquete?

O rio Douro nasce na serra de Urbion
em Espanha, ao pé de uma erva,
e vai desaguando
na erva seca de muitos olhos
que calculam a sua própria distância em vinho.

Antologia dos Poemas Durienses - ANTÓNIO CABRAL

ANDAMENTO


Amorímetro

E agora encontro na minha a tua mão no
teu pulso passa um rio barcos ancorados
troncos na torrente e
notas de flauta a montante

tomo-te o pulso conto os impulsos da água
entre ramos de salgueiros cabelos verdes
correm os teus olhos pelos meus
palavra a palavra diluídos

estão certos os pés de violeta e os
fios de relva nas margens
tudo esmorece na pele da água
um rio azul no mapa do teu pulso

demoro a tua saliva na minha boca
pára passando o tempo folha verde no vento
ou pássaro fugindo das nossas mãos abrindo-se
agora neste momento.

Andamento - FERNÃO DE MAGALHÃES GONÇALVES
capa - NADIR AFONSO

sexta-feira, 5 de junho de 2009

LIVRO DE HORAS


(...) Hora 11

no sítio escorregadio
do duche,
quando o teu corpo sai,

ficam inúmeras gotas
que reflectem por horas
o inexplicável

da tua nudez.

surpreendidas
pela indiferença
com que as deixaste
assim multiplicadas,

as tuas imagens líquidas

perduram.

Livro de Horas Iluminado Obliquamente - VÍTOR OLIVEIRA JORGE
capa - ESPIGA PINTO

MULHERES PORTUGUESAS


Mulheres Portuguesas (séc. XV/XVI) na Europa do seu Tempo

"(...) Daí que Júlio Dantas tivesse concluído que se tratava de uma verdadeira tragédia de amor, envolvendo directamente a Infanta.
Teria sido exactamente esta tragédia o que desencadeou a crise de exaltação mística que lhe é atribuída. Daí, finalmente, a conclusão definitiva: D. Joana deve ser considerada não só como uma santa, mas também como uma das grandes amorosas da nossa história.
Este profundo desgosto de amor teria pois condicionado toda a sua conduta futura em que podemos encontrar, sob as aparências duma exaltação mística de facto excessiva, uma (pelo menos inconsciente) revolta surda e um alheamento da vida.(...)"
Mulheres Portuguesas - ANASTÁSIA M. SALGADO
capa -ESPIGA PINTO

EUROPA ESCONDIDA



"(...) - Vamos ao alfaiate comprar-te um casaco.
Num Natal qualquer, teria uns dezassete anos, sabe, foi antes da inspecção militar, a mãe veio com a novidade. Disse-lhe para apressar o almoço e iam lá os dois, enquanto o novo marido saboreava o seu cachimbo e passava os olhos pelo jornal. "Já falei com ele, mas é melhor tu ires. Vestes e vamos ver como te fica. Não tens nada bom para ir à missa ou para uma ocasião qualquer". Nunca teve muita roupa. O marido da mãe era muito vaidoso, andava quase sempre vestido com as mesmas calças e camisas, mas tinha um armário cheio de casacos para Verão e para Inverno, muitas calças, tudo muito bem passado e pendurado, gavetões com peúgas, lenços, ceroulas. Às vezes espreitava quando a mãe ia guardar as peças lavadas e passadas.(...)"
Europa Escondida - GUIDA NUNES
capa - ESPIGA PINTO

PASSAGENS E AFECTOS


O Despertar do Amor

O Amor, era rio crescente
Que em mim desaguava.
E só sabia a nascente,
En sonhos, quando acordava

Como primavera em flor,
Na torrente das miragens,
Era imenso o esplendor,
No fluir das linguagens.

Mas eram frutos proibidos,
O beijar dos lábios teus,
E ao sentir dos meus sentidos,
Só davam sentido os teus.

E via-te só e nua,
No segredo dos desejos,
E quando passavas por mim,
Sentia o sabor dos teus beijos.

Passagens e Afectos - JOÃO DE DEUS RODRIGUES

A CULPA DE DEUS



A Culpa de Deus para um ensaio sobre o livre arbítrio

"(...) Coloco o ouvido perto da boca dele e oiço, estupefacto, um apelo para que o ajudem a morrer.
-Já não estou nem vivo nem morto. Sofro muito, não tenho palavras para o exprimir. Preciso de reencontrar um resto de dignidade, morrer apaziguado pela decisão, não ficar reduzido a um desses ratos de laboratório que se apagam cheios de "cancros experimentais", as patas para o ar, um fio de sangue pendurado dos focinhos. Ajude-me a morrer com alguma paz digna, é só baixar aquelas alavancas ou desligar os cabos de sustentação cardíaca.
Aperto-lhe a mão livre, junto as palavras que posso:
- Não condeno a sua vontade. Concordo com o direito que ela implica. Mas não estou em condições, nem físicas, nem emocionais, e muito menos jurídicas, para fazer o que me pede sem qualquer espécie de questionação, uma aceitável troca de ideias entre nós. É preciso tempo para amar, é preciso tempo
para morrer.(...)"
A Culpa de Deus - ROCHA DE SOUSA
capa de rocha de Sousa